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  • Luciano Melo

RELAÇÕES FAMILIARES NA PANDEMIA

PROJETO TERAPIA EM LETRAS - TEXTO 7


Desde o início da pandemia da Covid-19, tenho sido procurado por muitos pais e mães preocupados com a piora da qualidade das relações entre os familiares.

Em seu relato, aparecem a irritabilidade fácil, a sensibilidade a flor da pele, o afastamento uns dos outros, o aumento das discussões, muitas delas por motivos “bobos”, além de sintomas que apontam para quadros de ansiedade e até mesmo de depressão.

Para compreender a alteração nas relações entre as pessoas, é preciso ter em mente a ação da pandemia sobre nossas vidas.


Quando entramos em quarentena, tínhamos uma vida estruturada e uma rotina definida. Nossas tarefas estavam pré-estabelecidas e nosso dia-a-dia, organizado.

De certa forma, podemos dizer que estávamos ainda no “início do ano”. Vínhamos do Carnaval e ainda tínhamos em mente os projetos definidos na transição de um ano para o outro. Eles seriam realizados ao longo de 2020, que seria para nós o melhor ano de nossas vidas.

Veio a quarentena e, com ela, nossas vidas foram viradas ao avesso: nossos planos foram comprometidos, o trabalho foi suspenso ou modificado para a modalidade home office, as aulas foram suspensas, fomos afastados da maior parte das pessoas que amamos e nossa liberdade de ir e vir foi ceifada.


Com isso, a família, tradicionalmente porto seguro, espaço de conforto, paz de espírito e segurança, transformou-se no lugar para o qual convergiram as incertezas, inseguranças e frustrações de todos nós.



Pais preocupados com a continuidade ou modificação de seu trabalho, com os compromissos financeiros e com a necessidade de conciliar suas tarefas com a demanda de maior tempo para acompanhamento de seus filhos em casa.

Filhos, crianças ou adolescentes, envolvidos com os desafios naturais de seu processo de desenvolvimento, afastados de seus amigos e colegas de escola, impossibilitados de consumir a energia que lhes é própria, mergulhados nas redes sociais e navegando pela internet de forma ilimitada e precisando se adaptar a uma relação com os estudos nunca vista. E como estar bem resolvido consigo mesmo é condição para se estar bem com os outros, não demorou muito para que os conflitos explodissem.

O baixo nível de desenvolvimento de nossa inteligência emocional tornou a administração de toda aquela situação e a superação das dificuldades trazidas por ela ainda mais desafiadoras.


Por isso, aí vão algumas orientações para a melhoria da qualidade das relações interpessoais dentro do ambiente familiar.


Se o isolamento tem sido a marca da família, é essencial retomar o contato. É preciso que as pessoas se busquem, deem um passo em direção às outras, considerando que o elo familiar pode tornar cada um e todos mais fortes para a vivência deste momento.

Além disso, mais do que nunca, é preciso investir na prática do diálogo, característica principal de uma relação interpessoal saudável.

O verdadeiro diálogo se distingue das conversas habituais, em que as pessoas se atropelam sucessivamente.



Em especial, se se tem a intenção de solucionar um conflito, ele requer dedicação exclusiva, ou seja, ao se sentar para dialogar, desligue-se de outras atividades que esperam por você e afaste possíveis distrações. Escute do início ao fim, sem interrupção, como quem quer acolher a fala do outro, ainda que ela contrarie suas convicções. Após escutar, procure compreender racionalmente o que lhe foi dito e, para isso, coloque-se no lugar do outro. Exponha com serenidade o que tem para dizer, sempre olhando nos olhos e com a disposição sincera e profunda de solucionar o conflito.

Mas, o diálogo não deve ser utilizado apenas para a solução de problemas. Ele deve ser reconhecido como uma ferramenta essencial para a socialização do que cada membro da família tem pensado e sentido a respeito de toda essa situação, bem como para resgatar e partilhar as lembranças de experiências positivas e saudáveis vivenciadas por todos: as comemorações, as vitórias, a superação de dificuldades, as piadas, os casos de família. Tudo isso permitirá que a família se sinta imersa numa “nuvem de positividade”.

Muito contribuirá para o aprimoramento das relações familiares uma revisão da distribuição das tarefas domésticas, uma vez que a rotina de todos, praticamente sem exceção, foi alterada. Refiro-me ao trabalho em equipe, que pode impedir que alguém se sinta sobrecarregado de responsabilidades.


Acima de tudo, é importante lembrar que a realidade familiar é, em grande parte, resultado da soma de todas as realidades individuais, isto é, é preciso que cada um esteja bem para que as relações sejam saudáveis e a família, também. Por isso, defina momentos para reflexão sobre sua vida individual, tente identificar seus sentimentos e emoções e elabore ou reveja seu projeto de vida pós-pandemia.


Texto: Psicólogo Luciano Melo

(Clínica Argos Psi).

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